A Simetria de acúmulos na obra de Beatriz Milhazes
Nas pinturas de Milhazes a cor serve de grande inspiração e se faz protagonista em todas as criações da artista. Em suas telas, a abundância de cores contrastantes interagem com formas geométricas abstratas exibindo, por resultado, uma simetria de ac
24 de outubro de 2016

Beatriz Milhazes, artista plástica nascida no Rio de Janeiro na década de 60, começa a produzir seus primeiros trabalhos mais significativos já na década de 80, frutos de seus estudos na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. E é no Parque Lage – onde futuramente passou a lecionar e coordenar atividades culturais- que o trabalho de Beatriz passou a ganhar maior visibilidade após a realização da mostra coletiva "Como Vai Você, Geração 80?", em Julho de 1984.


Nas pinturas de Milhazes a cor serve de grande inspiração e se faz protagonista em todas as criações da artista. Em suas telas, a abundância de cores contrastantes interagem com formas geométricas abstratas exibindo, por resultado, uma simetria de acúmulos que compõe um trabalho de sensações exorbitantes. Encontra-se em suas telas uma profusão de formas: flores, arabescos, círculos e quadrados em um cenário de múltiplas influências. Entre elas, a influência do estilo barroco, de padrões ornamentais, da art déco, além do concreto e neoconcreto brasileiros, de op e pop art.


Percebe-se também em seu trabalho a influência do construtivismo russo, de estruturas formais, da abstração geométrica e que explora intensamente o bidimensional. Como exemplo disso, temos a fatura - a fisicalidade da superfície da pintura –, conceito próprio do movimento construtivista e que é uma preocupação presente na prática de Milhazes.


_Lote #56 | Passeio em Rosa e Marrom, 2016 - 53,5 x 40 cm

(Lote_ #56 | Beatriz Milhazes - O Passeio em Rosa e Marrom - serigrafia, ed. 50 - 53,5 x 40 cm - 2016)


A técnica predominante nas obras da artista consiste em transportar cores e motivos para a tela através de colagens contínuas. Beatriz prepara imagens sobre plástico transparente, que são descoladas, como películas, e as aplica sobre a tela. Aqui, o que é próprio do gesto da pintura se dissolve na transferência da imagem da superfície plástica para a tela. E o movimento de destaque é aquele de manufaturar rigorosamente as camadas de materiais sobrepostas que se transforam, por sua vez, em uma pintura feita de imagens solidificadas pelo decalque. Em toda a sua obra observa-se o peculiar empirismo desses processos sequenciais de reutilização e criação de padrões, assim como em sua mais recente produção tridimensional.


As formas circulares recorrentes nas pinturas de Beatriz, que insinuam uma dinâmica de expansão e contração, remetem ao efeito op-art que influencia a obra da artista. Movimentos que convocam o olhar a divagar continuamente por toda a tela. Além disso, em suas telas, fica evidente uma anarquia estética entre as figuras representadas, onde não se definem planos nem uma sequência exata entre suas formas. Dessa forma, se faz sempre mandatório ir além do primeiro olhar sobre as obras de Beatriz Milhazes, que somente se realizam por inteiras, em sua integralidade. 


- Mariana Nicotera